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Essa discussão começou a partir de um fio (thread) que postei no twitter. Resolvi transformar em texto, e aí está.

Por esses dias esbarrei em um tweet de um cientista dizendo que Átila Iamarino é um pesquisador sem importância. Apenas um divulgador científico.

Pra quem estava em Marte, Átila, doutor em biologia, tem sido um dos maiores influenciadores digitais brasileiros a fornecer informações baseadas em fontes científicas sobre o COVID-19.

Omiti o autor do tweet porque não importa o mensageiro, mas sim a mensagem, e essa é uma mensagem/visão que já me deparei diversas vezes nos meus, não tantos, mas já alguns anos de vida acadêmica.

Vejo esse tipo de leitura normalmente em pesquisadores com POUCA MATURIDADE. Me chama a atenção vê-la em pesquisadores mais experientes. Isso normalmente ocorre com aqueles que tiveram uma formação estritamente acadêmica. Sem nenhum contato com outras atividades profissionais. Mas claro, isso não é regra. Quero crer que seja exceção.

A baliza de qualidade profissional de pesquisadores com esse tipo de visão é ter muitos artigos publicados nos meios de maior impacto científico internacional. Pessoas com essa visão não enxergam que para viabilizar pesquisas é preciso haver pessoas que ESTABELEÇAM PONTES com os mais diversos setores da sociedade.

Para haver bolsas e verba para projetos de pesquisa tem que haver políticas públicas que priorizem a ciência → Para haver políticas públicas é necessário convencer os agentes públicos a destinar verba para esse fim → Para convencer os agentes públicos é preciso que a população reconheça o valor da ciência → Para que esse reconhecimento aconteça é preciso que pessoas façam o trabalho de divulgação científica.

É exatamente isso que Átila e tantos outros fazem excepcionalmente bem. Mas não para por aí. Há muitas outras pontes que precisam ser construídas para garantir que o meio científico possa contribuir de maneira ativa com a sociedade.

É preciso que haja pessoas que estabeleçam pontes com empresas, indústria e todo o setor produtivo. Dessa maneira, as pesquisas podem se transformar em produtos ou serviços concretos, que tragam benefícios diretos à população geral. Isso o professor Sílvio Meira faz como ninguém no Brasil.

Também é necessário dar atenção a uma formação de base na graduação, com foco nas necessidades profissionais, não somente acadêmicas. Infelizmente esse tipo de atividade é muitas vezes negligenciado porque raramente produz pesquisas complexas como a pós-graduação. Isso o professor Adolfo Neto vem fazendo na área de computação. Com certeza há vários outros com um trabalho de base muito bom junto à comunidade de prática profissional.

Também é fundamental estabelecer pontes para definir políticas públicas baseadas em evidências científicas. Só assim teremos uma sociedade mais avançada. Isso o professor Miguel Nicolelis está fazendo muito bem com seu projeto Mandacaru que lidera várias iniciativas junto ao setor público para combate ao COVID-19.

Poderíamos passar horas listando mais e mais pontes que precisam existir para viabilizar a ciência. O que alguém com esse tipo de visão imatura precisa entender é que o mundo é muito mais complexo do que a sua bolha de Lattes recheado. Talvez uma forma de ajudar a enxergar isso seja baixando um pouco mais a bola.

Fonte desconhecida. Recomendaria a leitura do clássico livro The Structure of Scientific Revolutions de Thomas Kuhn. Talvez assim consiga entender que o grosso dos pesquisadores não passam de peões dentro de uma engrenagem muito maior. No momento atual da minha carreira profissional me incluo entre eles.

Mesmo a maioria dos “grandes” pesquisadores com trocentas publicações de impacto estão fazendo nada além do que Kuhn chama de ciência normal. Pequenas contribuições para o corpo científico que dentro de pouco tempo não serão lembradas por ninguém. Isso inclui até mesmo muitos pesquisadores detentores de Prêmio Nobel. A ciência revolucionária de Kuhn, em oposição à normal, quebra e estabelece novos paradigmas científicos. Essas são muito raras. Pouquíssimos de nós desfrutarão do privilégio de liderar tal tipo de iniciativa.

Mas eu não pararia por aí…

Dá pra baixar um pouco mais a bola. Recomendaria o, quase clássico moderno, The Black Swan de Nassim Nicholas Taleb. O mundo da pesquisa científica está localizado dentro do que Taleb chamaria de Extremistão. Um local imaginário onde fenômenos aleatórios dão origem a efeitos de impacto desproporcional. Um local em que impera a lógica do Winner-takes-all.

Por mais que alguns pesquisadores venham a fazer descobertas científicas que levem a uma quebra de paradigma à la Ciência Revolucionária de Kuhn, ainda assim, pela lógica do extremistão, muito disso deve-se a um movimento mais aleatório do que consciente. Ou seja, esse pesquisador não é tão desproporcionalmente melhor que seus pares como seu reconhecimento e impacto sugerem. A complexidade e aleatoriedade do caótico mundo atual é que gera cada vez mais essas distorções.

Todo esse balde de água fria é para baixarmos mais a bola enquanto pesquisadores e reconhecermos a importância dos nossos pares, que também são pesquisadores, mas que contribuem com a comunidade de outras formas. Eles muitas vezes criam essas pontes com o mundo exterior e não podemos usar a mesma régua para medir seus esforços e resultados.

E por que não?

Porque para estabelecer as ditas pontes, alguns pesquisadores precisam abandonar suas atividades de pesquisa rotineira. Seja por vocação ou por necessidade. Para fazer o mundo científico existir. E isso demanda MUITA dedicação.

Vai você se comunicar com milhões de pessoas como faz Átila pra ver o tanto de dedicação que é necessário. Vai tentar firmar parceria com empresas privadas para financiar projetos de pesquisa pra ver a dificuldade que é. Vai tentar definir políticas publicas pra ver como é difícil convencer os vários agentes políticos.

A maioria dos pesquisadores, obviamente, deve se manter fazendo o trabalho de base. Deve continuar pesquisando e publicando. Esse é o motor da ciência. Sem isso não há ciência. E esse é um trabalho extremamente nobre, que deve ser valorizado.

Mas, caso você, assim como eu, seja um dos peões dessa engrenagem, como a maioria é, procure botar a cabeça pra fora pelo menos de vez em quando. Pra ver se enxerga esse mundão ao seu redor. Não precisa ser você a estabelecer essas pontes. Mas não seja você a colocar bombas para implodi-las. Procure entender o quão importante é cada um desses esforços. Procure entender a dinâmica da coisa toda. Pra não ser engolido por ela.

Caso esse texto tenha sido útil, seria legal se você pudesse dar alguns “claps” para ajudar a divulgar na comunidade.

No twitter (@brunocartaxo) estou sempre conversando e postando sobre a vida de quem faz mestrado e doutorado, inclusive focando em pessoas que atuam no mercado. Se tiver interesse, me segue lá.

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